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Bayano: o português uruguaio

Emerson Santiago | Emerson Santiago, TO NEM AÍ, Uruguai, linguística, traços culturais | Quinta-feira, 07 Agosto 2008

Sim, caro leitor. No Uruguai também se fala português! 

TÔ NEM AÍ
Meu objetivo é tratar de Tratar de lusofonia sem abordar assuntos relacionados a Brasil ou Portugal. Será que consigo?

URUGUAI - Neste artigo quero tratar dos chamados DPU (sigla de Dialectos Portugueses del Uruguay), termo criado pelos estudiosos lingüistas de Montevidéu para definir uma (ou várias, ainda não se chegou a um consenso) variante da língua portuguesa criada e desenvolvida no próprio Uruguai. Mas afinal, o que são esses dialetos? Teriam eles alguma ligação ou influência cultural brasileira? Onde se localiza tal fenômeno?

Respondo: Há cerca de 45 anos era ponto pacífico para todo intelectual uruguaio que seu país possuía uma língua e uma cultura deveras homogênea. Foi com esse espírito que o lingüista Pedro Rona resolveu envolver-se no estudo das variedades da língua espanhola falada mais ao norte de seu país. O norte do Uruguai era, na época, e ainda é, a parte digamos, um pouco mais esquecida ou mais destacada da capital, portanto, com uma realidade pouco conhecida nos grandes centros do país.

E qual foi a surpresa deste senhor ao se deparar com uma população que era na verdade bilíngüe; no trabalho, em ocasiões oficiais e cerimônias, utilizava-se o espanhol, em casa, com os amigos, parentes, família, as pessoas utilizavam uma espécie de português corrompido, com algum vocabulário espanhol. Este português não era o mesmo do Rio Grande do Sul, demonstrava ser, isso sim, um continuum, um prolongamento da língua portuguesa em terras uruguaias.

Os estudos de Alberto Elizaincin confirmaram mais tarde o tal fenômeno. Foi ele quem cunhou o termo “DPU”, até hoje preferido nos meios intelectuais. Já a população local (norte do Uruguai, regiões de Artigas, Rivera, Rio Branco e afins) refere-se ao seu falar como ”fronterizo”, ”bayano”, ”brasilero” ou até mesmo”portuñol” (não confundir com a mistura mal articulada de português e espanhol que aparece na mídia).

A conclusão é de que a área do norte do Uruguai foi historicamente palco de colonização portuguesa, e a língua manteve-se, apesar dos pesares. Equivocadamente os independentistas uruguaios, tentando forjar uma identidade hispanista diversa da brasileira, que desse plena justificação à independência de seu país, reconheceram apenas a língua espanhola como legítima representante de sua cultura em detrimento da brasileira (Timor também fez isso com relação à Indonésia, ao adotar a língua portuguesa como oficial). Assim, o norte do Uruguai foi, forçosamente, desde a independência do país, ”aculturado” em tal mentalidade.

Falar o tal “bayano” era sinônimo de condição social inferior; fazia de você um jeca dentro do Uruguai. Hoje em dia, um resgate do idioma vem sendo feito. O português é obrigatório no ensino público a partir da sexta série e aulas bilíngües, em português e espanhol, estão disponíveis na região norte do país.

As pesquisas avançam, há estudos que confirmam que dois ou até mesmo seis tipos diferentes de português são utilizados pela população do norte do Uruguai (daí o termo estar cunhado no plural). Essas variedades possuem sim, influência do português do Rio Grande do Sul, região vizinha, do Rio de Janeiro (influência das telenovelas e programação em geral de televisão) e do espanhol, variedade uruguaia. Mas, é comprovadamente, uma espécie de português cultivado e falado dentro do Uruguai, pelo seu próprio povo, e parte de sua cultura.

É interessante notar que aproximadamente um terço dos uruguaios possuem sobrenomes portugueses (exemplos: o jogador de futebol Pedro Rocha, ídolo do São Paulo na década de 70; Leandro Andrade, o artilheiro da copa de 1930 e capitão da seleção uruguaia; ou então Pedrito Ferreira, o maior artista do candombe, ritmo afro-uruguaio de raízes angolanas e brasileiras).

Emerson Santiago é brasileiro, advogado, intérprete e tradutor de
mandarim (chinês) e é um apaixonado pelas culturas lusófonas. Ele escreve todas às quintas-feiras no blog Descobri a Pólvora!

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