Era uma tarde quente de domingo, algo em torno de 35 graus. A cidade trocou, mesmo que momentaneamente, a cor marrom poeira, pelo vermelho, preto e amarelo da bandeira.
Por todos os lados, carros, motos e pedestres ostentavam bandeiras e camisas da seleção nacional. Os “Palancas Negras”, como são conhecidos, são unanimidade em um país acostumado a divisões.
Em 2006, para surpresa geral, Angola conseguiu pela primeira vez se classificar para a Copa do Mundo de Futebol, desbancando a poderosa Nigéria, favorita do grupo nas eliminatórias. A população entrou em êxtase, não se via tamanha união desde a luta pela independência.
O acanhado, porém confortável, estádio dos Coqueiros tem capacidade para 8 mil pessoas, nem todos os lugares estavam ocupados, mas os presentes não pararam de gritar um só minuto. Entre as muitas bandeiras de Angola, outras do MPLA (partido do governo) e da UNITA (oposição) tremulavam lado a lado, um passo importante para um país que viveu 27 anos de guerra civil.
Em campo, os jogadores de Angola e Benin brigavam calorosamente pela bola, muitas vezes com a bola, outras vezes simplesmente brigavam, sem bola mesmo.
Ao fim do primeiro tempo, com um futebol sofrível de ambos os lados, o placar marcava 0×0.
Foram 3 jogos durante a Copa do Mundo. Derrota por 1 tento para Portugal, empate sem gols contra o México, e empate em 1 a 1 contra o Irã. Angola ficou em terceiro lugar no grupo D, com um gol pró, um gol contra e nenhuma vitória. Foi desclassificada ainda na primeira fase.
O segundo tempo começou um pouco mais animado, algumas substituições, realizadas em ambas equipes, surtiram efeito. Apesar do futebol ruim, Angola começa a tomar conta do jogo e, aos 16 minutos do segundo tempo, abre o placar. Uma explosão nas arquibancadas, o grito que estava entalado desde o começo do jogo ecoou pelo estádio. Gol.
Após a campanha do mundial, os jogadores foram recebidos em Luanda como heróis. Mais de 50 mil pessoas aguardavam a seleção no aeroporto, cartazes com os dizeres “Obrigado” e “Somos especiais” mostravam a importância do feito.
Não foi qualquer copa do mundo. Foi a primeira copa do mundo com Angola em paz (2002). Um país carente de alegria, auto-estima, de motivos para seguir em frente. Na Alemanha, apesar de seu único gol, Angola fez história, mostrou sua cara, sua força.
Foram mais dois gols para fechar a vitória na estréia. O placar de 3×0 não refletiu exatamente a realidade do jogo, mas isso pouco importa. Fomos embora felizes, cantando, fazendo festa. O caminho é longo, mas Angola pretende repetir o feito e estar presente na Copa de 2010.
Felipe Tonet é brasileiro, jornalista, trabalha em Angola e escreve todas às sextas-feiras no Descobri a Pólvora!