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Luanda - Angola


Brasilia - Brasil


Lisboa - Portugal


Maputo - Moçambique


Praia - Cabo Verde


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Os carros de Luanda

Sandra Ugrin | Angola, Cidade, cotidiano, traços culturais | Sexta-feira, 08 Agosto 2008

ANGOLA - Luanda tem uma poeira danada devido ao calor e as ruas de terra, mas é impressionante, os carros estão sempre brilhando. Isso os brasileiros precisam copiar dos Angolanos, eles lavam os carros só com um baldezinho de água. Em qualquer lugar que você parar vai encontrar alguém disposto a lavar seu carro.

Se o brasileiros são apaixonados por carros, os angolanos são muito mais. Eles adoram carrões, mas não fazem a menor manutenção neles; hoje um deles perdeu a roda na frente do escritório. A coisa mais comum aqui em Luanda é ver carcaças de carros jogadas em terrenos. Mas em Luanda não existe estacionar em fila dupla, só tripla…

Ou no meio da rua mesmo…

Confira mais fotos clicando aqui

Sandra Ugrin é brasileira, trabalha em Luanda na área de marketing com inteligência de mercado e escreve todas às sextas-feiras no Descobri a Pólvora! Para saber desta e de outras histórias, acesse o blog Menina de Angola.

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A cidade

João Pinheiro | Artes plásticas, Brasil, Cidade, João Pinheiro, cotidiano | Domingo, 03 Agosto 2008

BRASIL - Eu continuo por aqui;
Observo os boeiros sujos,
as bocas de lobo cancerosas.

Os barracos são como doentes
que insistem em sobreviver,
quase sem sangue nas veias.

As paredes esverdeadas e descascadas
são como a própria existência nossa.
Vejo-as como a pele de um septuagenário
que fica áspera com cada esperança perdida,
lágrima caída, passo dado…

Só creio no que meus olhos vêem,
no que meu corpo sente.
Sentir na pele foi minha única maneira de aprender.

Sou aquele barraco que descasca,
aquela árvore debruçada sobre o muro,
sou como um poste brotando do concreto,
aquele boeiro que transborda
carregado de existência.

João Pinheiro é brasileiro, cartunista, ilustrador e escreve todos os domingos - com textos e imagens - no blog Descobri a Pólvora! Conheça mais do trabalho brilhante do João no portifólio dele e nos blogs Os Subterrãneos e Cabeçorra e Corvolino.

A dura realidade

Sandra Ugrin | Angola, Cidade, cotidiano | Sexta-feira, 01 Agosto 2008

ANGOLA - O pôr do sol em Luanda é lindo, cada dia de uma cor. Mas hoje vi muito de perto a realidade de mais de 70% da população de Luanda. O motorista que foi me pegar veio cortando caminho pelas musseques (favelas), mas por regiões que nem nos meus piores pesadelos eu poderia imaginar.

Não tenho fotos para mostrar, já que aqui não se pode fotografar a miséria e corre-se o risco de ficar sem câmera.

Ver mulheres carregando pesadas bacias com coisas na cabeça para vender, grávidas e com outro bebê amarrado nas costas é lugar comum em Angola, mas ver uma criança com deficiência mental acorrentada a uma roda é difícil de digerir.

Ver lixo na rua é comum em Luanda, mas ver uma rua inteira cheia de lixo com crianças pequeninas brincando enquanto as galinhas que logo vão virar janta se alimentam de lixo em putrefação, é difícil de processar.

Ver crianças magricelinhas é parte da paisagem, mas ver crianças carregando crianças nas costas com seus cabelos amarelados não é tão poético como as fotos podem parecer.

A primeira criança que eu vi com os cabelos amarelos eu achei que era blondor, talvez alguma moda maluca daqui, mas descobri que o amarelo dos cabelos é devido à desnutrição.

Mulheres cozinhando no chão em pequenas brasas de carvão, mulheres com latas de água na cabeça, mulheres com botijão de gás na cabeça, mulheres, mulheres…

Luanda é uma cidade machista e as mulheres dão um duro danado.

Sandra Ugrin é brasileira, trabalha em Luanda na área de marketing com inteligência de mercado  e escreve todas às sextas-feiras no Descobri a Pólvora! Para saber desta e de outras histórias, acesse o blog Menina de Angola.

Na esquina de Maputo

Celso Amade | Celso Amade, Cidade, Moçambique, cotidiano | Quinta-feira, 31 Julho 2008

MOÇAMBIQUE - Tem quem se lembra de Lourenço Marques.Tem também quem se lembra de Maputo. Eu não consigo deixar de lembrá-la como “A Cidade das Acácias”, com seu perfume característico, o ar quente batendo no meu rosto suado, as árvores verdes cheias de flores coloridíssimas.

Desço a avenida assobiando “Jorogina” do Fany Mfumo, mãos nos bolsos como quem não quer nada. A minha mente vagueia mais rápida que os pés pelas ruas da baixa.
Sento-me no café Scala para tomar ar, escolho uma mesa na esplanada, já que não sei assobiar embora inveje os meus amigos que com toda a perícia de pastor assobiam com pulmão e meio todos aqueles toques de chamada. Levanto a mão meio timidamente para chamar o mocinho, e peço uma Rainha.

De pernas cruzadas voltado para a estrada aprecio o movimento de meninos que pedem quinheta, dos moços que vendem peças de artesanato, do velho engraxador de sapatos sentado na sua caixa-oficina, do ardina que grita os títulos do jornal Noticias, das mamanas vestidas de capulanas de cores coloridas que vem do Mercado Municipal com cestos de palha na cabeça.

Perco-me nesta visão da minha terra, o despontar da minha mocidade neste espaço, onde me sinto parte integrante daqueles que jazem personagens da minha estória do outro lado da mesa… senhor! senhor! … O chá já está! - Acho que me assustei com a minha ausência! O servente pôs o chá na mesa, sorriu e perguntou se desejava mais alguma coisa. Ainda meio ausente, tentei retribuí-lo esboçando um sorriso também, mas acho que não me sucedi como devia ser, senti que o meu sorriso tinha mais a ver com uma expressão de “porra meu, assustaste-me!”

Ainda contemplando as acácias da minha terra, de dois tragos desmaterializei a Rainha goela abaixo, ficando depois com um sentimento de culpa. Não era suposto ser assim, deveria ter tomado este chá com mais calma.

O fim do chá tirou-me a vontade de continuar sentado, afinal era o pretexto para ali estar naquela esquina sem fazer nada, só que deste lado da mesa.
Vou-me contemplando as acácias da minha terra.

Para entender melhor: 

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Lourenço Marques - Antigo nome da cidade de Maputo, capital de Moçambique
Fany Mfumo - Artista Mocambicano, um dos instituidores do ritmo marrabenta.
Quinhenta - Denominação de moeda de valor mínimo.
Mamanas - Senhora no contexto cultural do sul de Moçambique
Capulana - Peça de pano usada pelas senhoras em forma de saia

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Celso Amade é moçambicano e autor dos sites Moc magazine e Mbila música de Moçambique.

Entre Jaimão e Gentileza

Michell Niero | Brasil, Cidade, Michell Niero, Personagens, cotidiano, traços culturais | Segunda-feira, 28 Julho 2008

BRASIL - O gentil brasileiro tem sempre uma mensagem de fé guardada como hóstia, abaixo da língua. Ele diz que se “Deus quiser” tudo vai dar certo. Gentil e otimista, este brasileiro não perde a chance de profetizar um mundo melhor, de se apegar a exemplos de sucesso isolados - como o do ex-camelô Silvio Santos, por exemplo. Ele acredita em milagres, é bem humorado e faz promessas. “Deixa a vida me levar” é o que se escuta no rádio dele. “Se Deus quis, que sou eu para discordar?”, ele também questiona. Gosta de ditados populares, velhas máximas, loteria; o repertório de assuntos em rodas de amigo limita-se a futebol, novelas, mulheres (homens), carro, vizinhos, família e igreja. Quando acontece algum assassinato na vila, o brasileiro comenta e sente medo.

O ministro da propaganda nazista, Joseph Goebels, sempre deixou claro nos seus escritos que para mobilizar 1 milhão de alemães não foi preciso mudar as crenças e os valores deles. “A melhor comunicação é aquela que reforça os valores vigentes de uma sociedade”. E foi o que ele fez.

As características do gentil brasileiro estão reunidas em muitos dos líderes carismáticos, surgidos em meio a um povo miserável e sofrido. Surgem para amplificar a voz de quem vive à margem do progresso e da globalização, são fortes e encorajam um grande contingente de pessoas a repetir atitudes e rituais. Foram eles Antonio Conselheiro, Frei Damião, Padre Cícero. Todos eles têm em comum a militância em regiões isoladas, paupérrimas e longínquas dos grandes centros urbanos. Reafirmaram o cristianismo em terras de jagunços, justiceiros e coronéis. Morreram heróis para se tornarem santos na literatura de cordel e na reza forte desse povo sofrido.

Em meio à urbe carioca, um desses líderes, o Profeta Gentileza (foto), tornou-se figura presente no folclore urbano trazendo lições do cristianismo ortodoxo em muros, viadutos, pilastras, mensagens essas que podem, até hoje, serem vistas por entre os becos da cidade.

Diz a história que ele se chamava José Datrino. Era um empresário que ao saber do incêndio de um Circo, ouviu “vozes astrais“, ditando sua nova missão. Sua primeira ação foi plantar um jardim sobre o terreno que abrigava Circo incendiado. Renunciou à vida de homem normal e se tornou um dos giramundos mais conhecidos do Rio de Janeiro. A todos que abordava, deixava mensagens em prol do amor, da bondade, do respeito pelo próximo e pela natureza. A quem lhe chamava de louco, ele rebatia. “Sou maluco para te amar e louco para te salvar“.

Depois de sua morte, tornou-se ícone, estampando camisetas de playboys cariocas, em Copacabana e Ipanema, ganhou uma música da cantora Marisa Monte e em breve será homenageado por Glória Perez, novelista da Rede Globo, na próxima novela das 8.

Pegando a Via Dutra, estrada que liga o Rio a São Paulo, chegaremos a Osasco, cidade da região metropolitana paulista. Lá se encontra um brasileiro menos gentil. Mora também nas ruas, mas não tem vontade de ser mais um messias. Ele é conhecido com Jaimão pelo povo. Dizem que ele pertence a uma família rica. Aos que perguntam sobre sua família, ele rebate. “Minha família morreu”.

Convivi parte da minha infância sabendo das estripulias dele. Sua rotina consiste em pintar guias, paredes, calçadas e postes com restos de tinta encontrados pelas ruas; xingar e agredir pessoas também consta no seu catálogo de hábitos. Não aceita esmolas, não pede comida, ao menos nunca o vi nestas situações. Atualmente, ele ostenta um cabelo amarelo, provavelmente fruto de alguma maldade provocada por estudantes da escola em que estudei.

Após subir, desço o degrau que separa a primeira da terceira pessoa. Jaimão já foi agredido, denunciado, por vezes foi preso, repreendido por policiais por conta das pedradas em casas, carros e pedestres. Os moradores contam que ele tem por volta de 65 anos de idade. Ninguém sabe se, de fato, ele se chama Jaime. Sempre foi motivo de piada, de maldades estudantis, nunca procuraram entender a raiva que rege os atos dele. Ele não é religioso e nem defende a moral cristã, muito pelo contrário. Gosta, sim, é de xingar mulheres de vadia e homens de filhos da puta.

Ele continua descabelado enquanto que Gentileza prepara-se para reencarnar em uma novela na Globo. O mendigo osasquense continua com o sapato torto, cinto apertando a calça para ela não cair. Do outro lado da Dutra, um jovem ativista da elite carioca veste a camisa do profeta da paz, do amor e da bondade. Jaimão anda pela Vila Yara mastigando alguma coisa, dentadura ou falta de dentes. Fica à frente da padaria ou da loja de doces ou então da vendinha onde se vende salgadinhos por quilo, sempre à espera do alimento diário. Não será santificado quando morrer, pois nas mãos há uma tinta sem vontade de formar palavras, frases, desenhos, orações.

Um brasileiro sem jeitinho, o anti-herói, um macunaíma. Um exemplo de fracasso ou de resistência? O fato é que, assim como muitos por aqui, Jaimão é também um brasileiro que não tem muito a dizer.

Michell Niero é brasileiro e idealizador da Revista O Patifúndio. Ele escreve todas às segundas-feiras no blog Descobri a Pólvora!

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