Bon di Papiá
Pequeno relato daquele que é considerado o principal escritor, poeta e
lingüista das Antilhas Holandesas: Frank Martinus Arion
TÔ NEM AÍ
Meu objetivo é tratar de Tratar de lusofonia sem abordar assuntos relacionados
a Brasil ou Portugal. Será que consigo?
ANTILHAS HOLANDESAS - Línguas servem para aproximar, mas também para isolar povos. Quando Bernard Shaw disse que Estados Unidos e Inglaterra são dois povos separados pelo mesmo idioma, não estava brincando. Aqui temos o mesmo caso. Quanto será que os países de língua portuguesa conhecem da realidade e cultura das Antilhas Holandesas? E por que deveria, diriam alguns ingênuos, lá se usa holandês…e afinal, por que tratar de Antilhas Holandesas e de um escritor dessa região em um blog dedicado a culturas de língua portuguesa?
Muito simples de explicar. A cultura deste pequeno território caribenho que abrange dois conjuntos distintos de ilhas (barlavento e sotavento) guarda em seu idioma local um dos mais incríveis e misteriosos tesouros culturais e históricos que o ser humano já produziu. Falo do papiamento, que há cerca de cem anos é estudado e que tem uma origem eivada de polêmicas.
Durante muito tempo acreditou-se que se tratava de uma mistura confusa entre português, inglês, holandês e espanhol. Depois, pela vizinhança com países de língua espanhola e pela própria história de ocupação espanhola antes do domínio holandês, acreditou-se ser uma língua crioula derivada do espanhol. Hoje em dia, a tese dominante é de que o papiamento surgiu de uma interessante conexão entre África, Portugal e até Brasil.
Por isso considero o idioma um verdadeiro tesouro cultural…como pôde uma língua crioula de base portuguesa sobreviver num território nunca pretendido nem ocupado por portugueses, cercado de territórios de língua espanhola e sob domínio de um país de língua holandesa?
O escritor, poeta e lingüista Frank Martinus Arion (foto) explica o fenômeno. Talvez poucos podem fazê-lo melhor, sendo ele natural do próprio território, lingüista e pesquisador incansável do idioma.
Eu traduzi há um bom tempo atrás uma entrevista de Arion (na verdade, pseudônimo de Frank Efraim Martinus) à publicação “De Groener Amsterdammer” (O amsterdamês verde, em português) onde ele contava um pouco da sua trajetória e como se tornou um entusiasta da língua antilhana. Dizia ele no artigo, que anos atrás, quando Cabo Verde ainda era colônia
portuguesa e Salazar era Chefe de Estado, que foi preciso fazer uma escala em Praia durante seu vôo de Willemstad (capital das Antilhas Holandesas) até Amsterdam. E qual foi a sua surpresa em perceber que os naturais da cidade da Praia falavam a mesma língua de sua terra natal! Aquilo causou uma impressão forte e imensa curiosidade no então ainda jovem escritor.
Na verdade, o que ele descobriu foi que os caboverdianos falavam o crioulo, língua até hoje presente na cultura local. Mas, como podiam ser tão semelhantes as línguas, sendo que um território recebeu influência portuguesa e o outro holandesa? Como territórios tão distantes podiam repartir uma cultura tão semelhante?
Da pesquisa de Arion surgiram as respostas a essas intrigantes perguntas, compiladas no livro “O beijo de um escravo. Conexões Oeste-Africanas do Papiamento” (ainda sem tradução para o português), publicado em 1996. Nele, Arion relata a evolução do papiamento, surgido de uma linguagem embrionária chamada “guene” (relativo à Guiné, a imensa região africana onde hoje temos Guiné, Guiné-Bissau, Serra Leoa,Libéria…). Esta mesma linguagem embrionária, o guene, teria sido “transplantada” para as Antilhas por meio do horrendo e escabroso comércio de escravos.
A história é mais ou menos assim: ao estabelecerem comércio e domínio em inúmeros pontos da costa africana (num dado momento Portugal foi dono de praticamente toda costa da África subsaariana, com raríssimas exceções) os portugueses estabeleceram seu idioma como língua geral ou língua franca por onde passavam. Esta língua, este português simplificado, recebeu o nome de Guene; o Guene mais tarde daria origem às línguas crioulas de São Tomé e Príncipe, Guiné Equatorial, Cabo Verde, Guiné-Bissau e Senegal (e Aruba e Antilhas Holandesas também!)
Quando eram escravizados e jogados dentro dos horrendos navios negreiros, os africanos não tinham outra saída senão usar aquele português geral ou simplificado que aprenderam na costa africana. A língua acompanhou-os até os domínios holandeses no caribe e lá recebeu um colorido do português dos judeus recém emigrados do extinto Brasil Holandês. Pronto; com o tempo, do outro lado do Atlântico germinaria uma língua similar àquela de Cabo Verde, Guinés Bissau e Equatorial, Senegal e SãoTomé e Príncipe.
Arion é quem conta isso tudo em seu livro. Eu já o li. Outros façam agora o favor
de procurar saber mais sobre ele, ler suas outras obras e apreciar o esforço que este bravíssimo escritor tem feito em promover a sua língua, o papiamento, que tem tanto a ver conosco, e nós nem nos damos conta (veja ao lado a popular ”Ave Maria”, em papiamento).
Ele foi um dos principais articuladores para que no final de 2007 o papiamento se tornasse enfim, língua oficial da Aruba e Antilhas Holandesas, ao lado do inglês e do holandês. Algo que já estava mais do que na hora, porque toda música, imprensa, quotidiano, sentimento, etc. dos antilhanos e arubenses está registrada em papiamento, e não em holandês!
Leitura: The Kiss of a Slave. Papiamentu’s West-African Connections -
Universiteit van Amsterdam, 1996; disponível apenas em inglês e holandês
Emerson Santiago é brasileiro, advogado, intérprete e tradutor de
mandarim (chinês) e é um apaixonado pelas culturas lusófonas. Ele escreve todas às quintas-feiras no blog Descobri a Pólvora!
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MACAU - Quando o assunto é o declínio do império colonial português, logo é mencionada a guerra colonial travada nas três principais ex-colônias portuguesas na África (Guiné-Bissau, Angola e Moçambique). Fala-se também aqui e ali sobre a ocupação de Goa pelas tropas indianas, e só. Mas Macau também testemunhou um momento decisivo em 1966, o chamado ‘Motim 1-2-3′.
A ideia orixinal por detrás deste artigo surxiu de unha curiosidade miña. Sou fascinado polo trobadorismo galego-portugués; na escola era o período literario que máis me cativou. Porém, em lugar algún, até mesmo aquí na internet é dificil encontrar a resposta a unha pregunta moito simples e por demáis óbvia: sendo os trobadores músicos, (eu tamém sou músico, toco viola caipira e guitarra elétrica) que instrumentos musiciais estes utilizaban?.
Logo surgiu o formato definitivo, destinado a um músico apenas, e moitos dos trobadores medievais utilizaban a zanfona. Tanto é assim co instrumento viaxou con esses músicos intinerantes a diversos países da Europa, onde foi incorporado a música tradicional local. Na França recebeu o nome de ”vielle à roue” (violino de roda); no Reino Unido, recebeu o nome de ”hurdy-gurdy” (onomatopea, alegadamente referente o son estridente do instrumento, que non agradaba os naturais ingleses); na Hungria é tamém parte da música tradicional, co nome de ”tekerolant”.
No dia 4 de Janeiro de 2005 pela primeira vez celebrou-se em São Tomé e Príncipe, com um feriado nacional, uma figura já conhecida por todos aqueles que tiveram a oportunidade de segurar uma cédula de dobra (a moeda são-tomense) nas mãos. O feriado era dedicado ao Rei Amador, líder de uma revolta de escravos do arquipélago em 1595. O dia 4 de Janeiro marca a data de seu justiçamento pelas autoridades colonias portuguesas.
Há até mesmo quem diga que Amador é uma lenda, um líder fictício de uma revolta que ocorreu de fato. Mas, existindo ou não, é verdade que todas as nações necessitam de algum modo de tais figuras emblemáticas. Assim como no Brasil existe a figura de Zumbi dos Palmares, São Tomé teve, pelo menos cem anos antes, o seu Zumbi, um verdadeiro rei africano, tendo existido ou sendo meramente fruto da mais inventiva ficção. O preço que Amador estava disposto a pagar pela sua liberdade e de seus comandados é maior do que aquele que consta de todas as notas de dobra são-tomense emitidas até hoje com o seu perfil.