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Entre Jaimão e Gentileza

Michell Niero | Brasil, Cidade, Michell Niero, Personagens, cotidiano, traços culturais | Segunda-feira, 28 Julho 2008

BRASIL - O gentil brasileiro tem sempre uma mensagem de fé guardada como hóstia, abaixo da língua. Ele diz que se “Deus quiser” tudo vai dar certo. Gentil e otimista, este brasileiro não perde a chance de profetizar um mundo melhor, de se apegar a exemplos de sucesso isolados - como o do ex-camelô Silvio Santos, por exemplo. Ele acredita em milagres, é bem humorado e faz promessas. “Deixa a vida me levar” é o que se escuta no rádio dele. “Se Deus quis, que sou eu para discordar?”, ele também questiona. Gosta de ditados populares, velhas máximas, loteria; o repertório de assuntos em rodas de amigo limita-se a futebol, novelas, mulheres (homens), carro, vizinhos, família e igreja. Quando acontece algum assassinato na vila, o brasileiro comenta e sente medo.

O ministro da propaganda nazista, Joseph Goebels, sempre deixou claro nos seus escritos que para mobilizar 1 milhão de alemães não foi preciso mudar as crenças e os valores deles. “A melhor comunicação é aquela que reforça os valores vigentes de uma sociedade”. E foi o que ele fez.

As características do gentil brasileiro estão reunidas em muitos dos líderes carismáticos, surgidos em meio a um povo miserável e sofrido. Surgem para amplificar a voz de quem vive à margem do progresso e da globalização, são fortes e encorajam um grande contingente de pessoas a repetir atitudes e rituais. Foram eles Antonio Conselheiro, Frei Damião, Padre Cícero. Todos eles têm em comum a militância em regiões isoladas, paupérrimas e longínquas dos grandes centros urbanos. Reafirmaram o cristianismo em terras de jagunços, justiceiros e coronéis. Morreram heróis para se tornarem santos na literatura de cordel e na reza forte desse povo sofrido.

Em meio à urbe carioca, um desses líderes, o Profeta Gentileza (foto), tornou-se figura presente no folclore urbano trazendo lições do cristianismo ortodoxo em muros, viadutos, pilastras, mensagens essas que podem, até hoje, serem vistas por entre os becos da cidade.

Diz a história que ele se chamava José Datrino. Era um empresário que ao saber do incêndio de um Circo, ouviu “vozes astrais“, ditando sua nova missão. Sua primeira ação foi plantar um jardim sobre o terreno que abrigava Circo incendiado. Renunciou à vida de homem normal e se tornou um dos giramundos mais conhecidos do Rio de Janeiro. A todos que abordava, deixava mensagens em prol do amor, da bondade, do respeito pelo próximo e pela natureza. A quem lhe chamava de louco, ele rebatia. “Sou maluco para te amar e louco para te salvar“.

Depois de sua morte, tornou-se ícone, estampando camisetas de playboys cariocas, em Copacabana e Ipanema, ganhou uma música da cantora Marisa Monte e em breve será homenageado por Glória Perez, novelista da Rede Globo, na próxima novela das 8.

Pegando a Via Dutra, estrada que liga o Rio a São Paulo, chegaremos a Osasco, cidade da região metropolitana paulista. Lá se encontra um brasileiro menos gentil. Mora também nas ruas, mas não tem vontade de ser mais um messias. Ele é conhecido com Jaimão pelo povo. Dizem que ele pertence a uma família rica. Aos que perguntam sobre sua família, ele rebate. “Minha família morreu”.

Convivi parte da minha infância sabendo das estripulias dele. Sua rotina consiste em pintar guias, paredes, calçadas e postes com restos de tinta encontrados pelas ruas; xingar e agredir pessoas também consta no seu catálogo de hábitos. Não aceita esmolas, não pede comida, ao menos nunca o vi nestas situações. Atualmente, ele ostenta um cabelo amarelo, provavelmente fruto de alguma maldade provocada por estudantes da escola em que estudei.

Após subir, desço o degrau que separa a primeira da terceira pessoa. Jaimão já foi agredido, denunciado, por vezes foi preso, repreendido por policiais por conta das pedradas em casas, carros e pedestres. Os moradores contam que ele tem por volta de 65 anos de idade. Ninguém sabe se, de fato, ele se chama Jaime. Sempre foi motivo de piada, de maldades estudantis, nunca procuraram entender a raiva que rege os atos dele. Ele não é religioso e nem defende a moral cristã, muito pelo contrário. Gosta, sim, é de xingar mulheres de vadia e homens de filhos da puta.

Ele continua descabelado enquanto que Gentileza prepara-se para reencarnar em uma novela na Globo. O mendigo osasquense continua com o sapato torto, cinto apertando a calça para ela não cair. Do outro lado da Dutra, um jovem ativista da elite carioca veste a camisa do profeta da paz, do amor e da bondade. Jaimão anda pela Vila Yara mastigando alguma coisa, dentadura ou falta de dentes. Fica à frente da padaria ou da loja de doces ou então da vendinha onde se vende salgadinhos por quilo, sempre à espera do alimento diário. Não será santificado quando morrer, pois nas mãos há uma tinta sem vontade de formar palavras, frases, desenhos, orações.

Um brasileiro sem jeitinho, o anti-herói, um macunaíma. Um exemplo de fracasso ou de resistência? O fato é que, assim como muitos por aqui, Jaimão é também um brasileiro que não tem muito a dizer.

Michell Niero é brasileiro e idealizador da Revista O Patifúndio. Ele escreve todas às segundas-feiras no blog Descobri a Pólvora!

Vida Subterrânea

João Pinheiro | Brasil, Cidade, João Pinheiro, Personagens, cotidiano, traços culturais | Domingo, 27 Julho 2008

”Enquanto a cidade arranha o céu procurando mais espaço para viver, também escava a terra sepultando a si mesma com seus tubos capilares pelos quais os trens vão e vêm”.

Will Eisner 

BRASIL - Apresento hoje desenhos feitos no metrô e trem de São Paulo. Entre uma estação e outra vou registrando o que posso. Muitos desenhos não são terminados porque os modelos vão desembarcando sem respeitar minha vontade. Isso faz com que cada pessoa representada seja um desafio, porque tenho que registrar rápido, sem pensar muito.

Já fiz muitos desenhos assim. Algumas pessoas quando percebem que estou a desenhá-las vem perguntar por que estou fazendo aquilo, onde vou usar etc. Umas pedem o desenho e eu presenteio com prazer, outras levam na brincadeira e não se importam.

Esses desenhos são, para mim, além de um bom treino prático, um exercício de imaginação e de humanidade, pois são infinitos os tipos que povoam os vagões. As pessoas repetem-se em gestos, fisionomias, histórias… Em tudo a matemática da natureza está impregnada de modo que em nossa memória já estão gravados todos os tipos de narizes, bocas, queixos, ombros, seios, bundas e todo o resto da matéria que constitui uma pessoa. Uma senhora pode parecer com minha mãe, por exemplo, tendo todos os traços parecidos, se diferenciando apenas por algum detalhe, como um queixo mais alongado, o corte de cabelo ou diferença de idade. É como se houvesse um imenso quebra-cabeça com milhões de membros separados por tamanho e largura, catalogados e prontos para serem arranjados conforme a vontade do diagramador de gente que hora ou outra, inevitavelmente, vai se repetir.

Para fugir dos estereótipos e preconceitos é preciso observar com acuidade. Acredito que através do registro visual consigo vislumbrar coisas (sensações) invisíveis que passariam despercebidas em outra ocasião.

Até que finalmente chego ao meu destino e me despeço de todos mentalmente, agradeço, desejo bom descanso e vou embora.

João Pinheiro é brasileiro, cartunista, ilustrador e escreve todos os domingos - com textos e imagens - no blog Descobri a Pólvora! Conheça mais do trabalho brilhante do João no portifólio dele e nos blogs Os Subterrãneos e Cabeçorra e Corvolino.

O cantor da via férrea

Michell Niero | Brasil, Cidade, Michell Niero, Personagens, cotidiano | Terça-feira, 22 Julho 2008

BRASIL - A chegada do garoto com o violão não gerou surpresa a nenhum dos passageiros do trem metropolitano. Seria essa mesma atitude com um amputado, um pedinte, com uma criança vendendo bala ou então com um engraxate mirim, personagens já tão comuns na linha que corta a zona oeste paulistana.

O garoto, então, procurou equilibrar o corpo no meio do vagão, afastou bem as pernas para manter a postura rígida. Não era de gentilezas, pois sem pedir licença tratou de soltar um Mi maior fanho do violão já machucado pelas quedas. Era uma canção sertaneja, seqüência de acordes bastante comum, quatro versos e então estaríamos num refrão repetitivo e pegajoso. A impostação na voz para imitar os ídolos famosos e a sonoplastia da via férrea se embaralhavam. O balanço do trem prejudicava o andamento da música.

No exato oposto do jovem violonista, entra um homem, negro e cego, batendo no chão com um cajado pobre. Era na verdade um cabo de vassoura mais do que improvisado, mas suficiente para servir de guia. À primeira vista, parecia uma dupla bem entrosada – brasileiro gosta de música e costuma ter dó de gente aleijada, pensei - mas não. Logo na primeira parada as batidas no chão cessaram e o cego, observando mais que todos ali, decidiu ir embora. A culpa era do menino, que desviou a atenção dos clientes dele. Pela experiência que tinha no ramo, sabia que sua passagem pelos corredores abarrotados de gente não lhe renderia muitos trocados dessa vez.

O garoto sabia que os quinze minutos que teria entre as Estações Presidente Altino e Barra Funda teriam de ser divididos, fraternalmente, num repertório bastante popular para sensibilizar a audiência. Pôs-se a tocar uma canção sobre traição, emendou com uma romântica, intercalou também com um sertanejo de orientação evangélica, doutrina religiosa que ganha cada vez mais adeptos por aqui. Uma senhora pensa alto. “Esse menino vai fazer sucesso”.

O garoto, entre uma parada e outra, procurava trafegar pelos corredores e direcionar o número musical a todos os contos do trem (foi ai que eu consegui tirar a foto, após várias tentativas). Na Lapa ele dá uma pausa, puxa da bolsa do violão um chapéu de panamá:

- Primeiramente, queria agradecer a todos vocês. Eu sou cantor, tâmo ai na batalha pra mostrar nosso trabalho e queria pedir pra vocês uma ajuda. Pra quem não puder ajudar, mesmo assim, deus lhe pague.

Antes disso, tive certeza de que o cego era cego mesmo após levar dele uma cotovelada bem dada na orelha. Tirei da bolsa dois reais e dei pro garoto.

Depois da passagem da sacolinha, ele, entusiasmado com o dinheiro que recebeu, mandou ver numa canção animada, dessas de bailão popular. Chegamos na Barra Funda, ele agradeceu como quem se despede do Raul Gil:

- Obrigado gente, foi muito bom ter vocês aqui, deus abençoe e até a próxima.

Nenhum aplauso foi ouvido, ele também não foi para o camarim e nem se lembrou de dizer o nome para a platéia. Acompanhei ele até onde a vista alcançou. Foi com o violão nas costas para o fim da plataforma e se sentou para preparar um novo show. E eu, agora “abençoado”, subi as escadas rolantes para trabalhar.

Michell Niero é brasileiro e idealizador da Revista O Patifúndio. Ele escreve todas às segundas-feiras no blog Descobri a Pólvora!

Um colega que eu conheci

João Pinheiro | Artes plásticas, Brasil, João Pinheiro, Personagens, cotidiano | Segunda-feira, 14 Julho 2008

”Eu te digo, quanto mais penso nisso, mais eu sinto que não há nada mais artístico do que amar as pessoas”. Van Gogh

BRASIL - Eu quis ver a vida na rua, abaixo do céu cinza, a vida pulsante que gira. Meio deslocado, andando fora do ar e sem rumo certo, simplesmente caminhando e deixando meus olhos passearem à vontade.

Subia a rua olhando para as casas e prédios, paredes que guardam vidas e para os olhos dos que passavam por mim. Passei num pequeno (pequeno mesmo) sebo na viela que dá para o metrô Artur Alvim e perguntei para o Gibi (é assim que o dono dos livros é conhecido) se ele tinha algum livro do Saramago, ele me respondeu que não, mas avisou que tinha o ”Diário de um mago”. Saí de lá com as mãos abanando.

Fui descendo e vendo os camelôs espremidos contra as paredes da viela. CDs, DVDs, perfumes, refrigerante, sorvete, toucas e luvas, verduras e tantas outras quinquilharias eram oferecidas aos berros. Achei engraçado olhar para todas aquelas pessoas se esbarrando, rindo, algumas com cara fechada, subindo e descendo… Vivendo ou sobrevivendo? Tudo parecia muito natural. São essas pessoas que movem o país e, no entanto, não são elas que estampam capas de revista e nem as que entrarão para os anais da história.

Entrei em um bar próximo dali e me sentei ao lado dos trabalhadores. Todo dia é o mesmo ritual, eles se conhecem e são companheiros de uma luta comum : a luta pela sobrevivência. Entravam e saíam do bar, uma branquinha ou uma breja gelada e tchau, até amanhã. O dono desejava bom descanso para todos. Uma pequena TV estava ligada. Assistíamos ao noticiário e comentávamos as matérias.

Os mais velhos reclamavam da falta de caráter dos políticos, os jovens ouviam calados como se ainda não estivessem tão desiludidos quanto os outros. Do meu lado estava este senhor representado no desenho. Enquanto eu desenhava o bar, ele se aproximou timidamente para ver. O dono do bar também estava curioso e comentou que conhecia um cara que era um talento no desenho, mas que não prestava, era um mau caráter com todas as letras. Ouvi calado e continuei rabiscando O senhor pediu em tom de brincadeira para que eu desenhasse um colega que estava sentado ao seu lado e depois entregasse para a polícia, pois ele era um criminoso procurado. O outro riu e falou:

- Desenha o Zorro, esse velho veado!

Todos riram. Terminei o desenho do bar e perguntei para o Zorro se podia desenhá-lo, ele assentiu em sinal afirmativo. Depois de terminar o retrato perguntei qual era seu nome verdadeiro para colocar no desenho, ao passo que ele respondeu:

-  Não, meu nome eu não digo. Escreve aí que eu sou um colega que você conheceu.

João Pinheiro é brasileiro, cartunista, ilustrador e escreve todos os domingos - com textos e imagens - no blog Descobri a Pólvora! Conheça mais do trabalho brilhante do João no portifólio dele e nos blogs Os Subterrãneos e Cabeçorra e Corvolino.

Telemóvel bem guardado

Jorge Rosmaninho | Africanidades, Guiné-Bissau, Jorge Rosmaninho, Personagens, cotidiano, traços culturais | Quinta-feira, 10 Julho 2008

GUINÉ BISSAU - O velho E., mestre de obras, é o mais antigo da empresa onde trabalha, em Bissau. E por isso tem direito à chave do velho cofre, abandonado no pátio. É lá que guarda o seu telemóvel, quando o coloca à carga. Os colegas brincam com ele e ligam no preciso momento em que o aparelho jaz fechado a sete chaves dentro do quadrado de ferro. Então E. vem a correr, desfolha nas mãos drementes as 50 chaves que traz no bolso, e, quando finalmente abre a porta, o telemóvel pára de tocar.

Uma imagem muito comum na Guiné. Em Bissau, uma das poucas (a única?) cidades capitais do mundo onde não há energia eléctrica, os guineenses aproveitam os locais de trabalho, onde existem geradores, para carregar os telemóveis.

Jorge Rosmaninho é alentejano, jornalista e percorre a África em busca de imagens e histórias. Além de colaborar para a Revista O Patifúndio, ele mantém o blog Africanidades.

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