Entre Jaimão e Gentileza
BRASIL - O gentil brasileiro tem sempre uma mensagem de fé guardada como hóstia, abaixo da língua. Ele diz que se “Deus quiser” tudo vai dar certo. Gentil e otimista, este brasileiro não perde a chance de profetizar um mundo melhor, de se apegar a exemplos de sucesso isolados - como o do ex-camelô Silvio Santos, por exemplo. Ele acredita em milagres, é bem humorado e faz promessas. “Deixa a vida me levar” é o que se escuta no rádio dele. “Se Deus quis, que sou eu para discordar?”, ele também questiona. Gosta de ditados populares, velhas máximas, loteria; o repertório de assuntos em rodas de amigo limita-se a futebol, novelas, mulheres (homens), carro, vizinhos, família e igreja. Quando acontece algum assassinato na vila, o brasileiro comenta e sente medo.
O ministro da propaganda nazista, Joseph Goebels, sempre deixou claro nos seus escritos que para mobilizar 1 milhão de alemães não foi preciso mudar as crenças e os valores deles. “A melhor comunicação é aquela que reforça os valores vigentes de uma sociedade”. E foi o que ele fez.
As características do gentil brasileiro estão reunidas em muitos dos líderes carismáticos, surgidos em meio a um povo miserável e sofrido. Surgem para amplificar a voz de quem vive à margem do progresso e da globalização, são fortes e encorajam um grande contingente de pessoas a repetir atitudes e rituais. Foram eles Antonio Conselheiro, Frei Damião, Padre Cícero. Todos eles têm em comum a militância em regiões isoladas, paupérrimas e longínquas dos grandes centros urbanos. Reafirmaram o cristianismo em terras de jagunços, justiceiros e coronéis. Morreram heróis para se tornarem santos na literatura de cordel e na reza forte desse povo sofrido.
Em meio à urbe carioca, um desses líderes, o Profeta Gentileza (foto), tornou-se figura presente no folclore urbano trazendo lições do cristianismo ortodoxo em muros, viadutos, pilastras, mensagens essas que podem, até hoje, serem vistas por entre os becos da cidade.
Diz a história que ele se chamava José Datrino. Era um empresário que ao saber do incêndio de um Circo, ouviu “vozes astrais“, ditando sua nova missão. Sua primeira ação foi plantar um jardim sobre o terreno que abrigava Circo incendiado. Renunciou à vida de homem normal e se tornou um dos giramundos mais conhecidos do Rio de Janeiro. A todos que abordava, deixava mensagens em prol do amor, da bondade, do respeito pelo próximo e pela natureza. A quem lhe chamava de louco, ele rebatia. “Sou maluco para te amar e louco para te salvar“.
Depois de sua morte, tornou-se ícone, estampando camisetas de playboys cariocas, em Copacabana e Ipanema, ganhou uma música da cantora Marisa Monte e em breve será homenageado por Glória Perez, novelista da Rede Globo, na próxima novela das 8.
Pegando a Via Dutra, estrada que liga o Rio a São Paulo, chegaremos a Osasco, cidade da região metropolitana paulista. Lá se encontra um brasileiro menos gentil. Mora também nas ruas, mas não tem vontade de ser mais um messias. Ele é conhecido com Jaimão pelo povo. Dizem que ele pertence a uma família rica. Aos que perguntam sobre sua família, ele rebate. “Minha família morreu”.
Convivi parte da minha infância sabendo das estripulias dele. Sua rotina consiste em pintar guias, paredes, calçadas e postes com restos de tinta encontrados pelas ruas; xingar e agredir pessoas também consta no seu catálogo de hábitos. Não aceita esmolas, não pede comida, ao menos nunca o vi nestas situações. Atualmente, ele ostenta um cabelo amarelo, provavelmente fruto de alguma maldade provocada por estudantes da escola em que estudei.
Após subir, desço o degrau que separa a primeira da terceira pessoa. Jaimão já foi agredido, denunciado, por vezes foi preso, repreendido por policiais por conta das pedradas em casas, carros e pedestres. Os moradores contam que ele tem por volta de 65 anos de idade. Ninguém sabe se, de fato, ele se chama Jaime. Sempre foi motivo de piada, de maldades estudantis, nunca procuraram entender a raiva que rege os atos dele. Ele não é religioso e nem defende a moral cristã, muito pelo contrário. Gosta, sim, é de xingar mulheres de vadia e homens de filhos da puta.
Ele continua descabelado enquanto que Gentileza prepara-se para reencarnar em uma novela na Globo. O mendigo osasquense continua com o sapato torto, cinto apertando a calça para ela não cair. Do outro lado da Dutra, um jovem ativista da elite carioca veste a camisa do profeta da paz, do amor e da bondade. Jaimão anda pela Vila Yara mastigando alguma coisa, dentadura ou falta de dentes. Fica à frente da padaria ou da loja de doces ou então da vendinha onde se vende salgadinhos por quilo, sempre à espera do alimento diário. Não será santificado quando morrer, pois nas mãos há uma tinta sem vontade de formar palavras, frases, desenhos, orações.
Um brasileiro sem jeitinho, o anti-herói, um macunaíma. Um exemplo de fracasso ou de resistência? O fato é que, assim como muitos por aqui, Jaimão é também um brasileiro que não tem muito a dizer.
Michell Niero é brasileiro e idealizador da Revista O Patifúndio. Ele escreve todas às segundas-feiras no blog Descobri a Pólvora!











BRASIL - Apresento hoje desenhos feitos no metrô e trem de São Paulo. Entre uma estação e outra vou registrando o que posso. Muitos desenhos não são terminados porque os modelos vão desembarcando sem respeitar minha vontade. Isso faz com que cada pessoa representada seja um desafio, porque tenho que registrar rápido, sem pensar muito.
Para fugir dos estereótipos e preconceitos é preciso observar com acuidade. Acredito que através do registro visual consigo vislumbrar coisas (sensações) invisíveis que passariam despercebidas em outra ocasião.
BRASIL - A chegada do garoto com o violão não gerou surpresa a nenhum dos passageiros do trem metropolitano. Seria essa mesma atitude com um amputado, um pedinte, com uma criança vendendo bala ou então com um engraxate mirim, personagens já tão comuns na linha que corta a zona oeste paulistana.
BRASIL - Eu quis ver a vida na rua, abaixo do céu cinza, a vida pulsante que gira. Meio deslocado, andando fora do ar e sem rumo certo, simplesmente caminhando e deixando meus olhos passearem à vontade.
GUINÉ BISSAU - O velho E., mestre de obras, é o mais antigo da empresa onde trabalha, em Bissau. E por isso tem direito à chave do velho cofre, abandonado no pátio. É lá que guarda o seu telemóvel, quando o coloca à carga. Os colegas brincam com ele e ligam no preciso momento em que o aparelho jaz fechado a sete chaves dentro do quadrado de ferro. Então E. vem a correr, desfolha nas mãos drementes as 50 chaves que traz no bolso, e, quando finalmente abre a porta, o telemóvel pára de tocar.