O século “Kirishitan”

TÔ NEM AÍ , por Emerson Santiago
Tratar de lusofonia sem abordar assuntos relacionados a Brasil ou Portugal. Será que consigo?
O leitor pode se perguntar - porque incluir o Japão aqui? Para a grande maioria, o país do sol nascente só tem em comum com a cultura lusófona o breve período de contato com os portugueses no século XVI e a posterior imigração japonesa para o Brasil no século XX. Na verdade há mais que isso
Atualmente o Japão é o país asiático com o maior número de falantes da língua portuguesa (mais que o número de falantes de Macau, Goa, Damão, Diu e Timor juntos!). O próprio título deste artigo guarda uma parte interessante desta história, que mais tarde explicarei.
Quando qualquer um de nós nos debruçamos sobre a história japonesa, o interesse imediato recai sobre a história dos samurais, daimiôs (os “coronéis” do Japão feudal), xoguns (os ditadores militares), ninjas e afins. Só que antes do isolamento promovido pelo xogum Tokugawa Ieyasu no início do século XVII, o arquipélago japonês desenvolveu um interessante contato com a civilização ocidental através dos jesuítas e comerciantes portugueses, e em menor número, espanhóis. Esse período, que foi de 1542 a 1641, mais ou menos, recebeu do historiador C.R. Boxer o nome de “século cristão” (cristão = kirishitan, em japonês).
Porque digo aqui portugueses em sua maioria? Simples. Além do famoso tratado de Tordesilhas, Portugal e Espanha celebraram o Tratado de Saragoça, em 1529, que tinha a mesma finalidade do de Tordesilhas, só que delimitava os domínios a serem colonizados pelas duas potências no Extremo Oriente. O Japão ficava na esfera de influência portuguesa, e os mesmos tomaram a frente na exploração da região.
Se fosse para detalhar cada aspecto desse contato eu certamente poderia escrever uns dez artigos aqui neste espaço. Para começar, temos o termo “nanban”, utilizado para se referir aos exploradores e padres; era um termo pejorativo na verdade, pois significa “bárbaros do sul”, porque, além das diferenças físicas (os portugueses ainda vinham acompanhados de muitos africanos, indianos e mestiços, como atestam pinturas japonesas de época, acentuando o contraste visual entre os dois povos), os costumes de cada um causavam estranheza ao outro: enquanto os europeus comiam com as mãos, os japoneses usavam os tradicionais pauzinhos; enquanto os europeus limpavam as mãos, nariz e boca na manga da camisa, os japoneses utilizavam lenços de papel, semelhantes aos que temos hoje. Até mesmo o desconhecimento dos ideogramas da escrita japonesa faziam com que os europeus fossem considerados iletrados.
No Japão moderno, o termo “nanban” refere-se à arte, cultura e comércio produzido pelo contato de gente de costumes tão estranhos. Algo que despertou o interesse dos senhores japoneses logo de cara foi o arcabuz que os portugueses traziam. Os fabricantes das espadas dos samurais copiaram aos poucos os modelos trazidos ao Japão e desenvolveram o “teppo”, o seu próprio arcabuz que permaneceu praticamente o mesmo durante quase 300 anos, até a abertura do Japão na metade do século XIX.
O aprendizado de latim e português tornou-se corrente principalmente entre o crescente grupo de japoneses que adotavam o cristianismo. O cristão japonês logo adotava nomes como Paulo, André, Cosme, Antônio, Francisco, etc. É daí que se originam também a série de palavras que até hoje integram o vocabulário japonês, incluindo a palavra “kirishitan”. Mas essa palavra ainda guarda informações interessantes, que logo mais abaixo revelo.
Há ainda exemplos incríveis de pinturas e esculturas mesclando arte ocidental e oriental, realizadas pelos próprios japoneses, muitos deles convertidos ao cristianismo. Um excelente espécime é uma pintura do martírio de São Sebastião, atualmente no museu Guimet, França, com formas e expressão orientais.
A religião “kirishitan”.
Aliás, o Japão demonstrou ser um lugar onde o cristianismo fincou raízes a despeito da perseguição governamental. Poucos cristãos que lêem este artigo devem ter ouvido algum dia a história dos “26 mártires”, os primeiros santos católicos japoneses. Entre eles, um de grande destaque é são Paulo Miki, que, junto com seus companheiros, batizados pelos jesuítas trazidos por são Francisco Xavier, foram crucificados a mando do xogum Toyotomi Hideyoshi, em Nagasaki. Estes mártires foram seguidos de um grande número de outros, sendo o segundo grupo de 188 mártires também crucificados em Nagasaki.
Revoltas de cristãos não faltaram. A revolta de Shimabara, uma das maiores ameaças ao poder do xogunato japonês durante toda sua existência foi promovida por cristãos japoneses. Tais revoltas eram impiedosamente esmagadas e a perseguição aos cristãos foi sistemática, a tal ponto que esses cristãos passaram a encobrir sua prática religiosa com um cuidado e sigilo que talvez só vejamos nos filmes. É daí que surge minha conclusão, explicando o restante do significado da palavra “kirishitan”.
Os cristãos japoneses passaram a realizar seu culto com extremo sigilo; os locais de missa eram secretíssimos, as orações feitas num misto de português, espanhol e latim, que ao longo dos anos foi ficando indecifrável. A bíblia toda era memorizada, pois o medo da perseguição era tamanho que não se imprimiam livros, bíblias ou simples folhetos com orações. As imagens dos santos católicos foram aos poucos se metamorfoseando para enganar qualquer possível delator de cristãos, dando origem a imagens da Virgem Maria com feições totalmente orientais, que para um leigo mais parecem imagens budistas.
Esses cristãos, habitantes principalmente da parte sul do arquipélago japonês permaneceram assim, em extrema clandestinidade até a abertura do Japão ao exterior, no século XIX, quando missionários europeus encontraram esses devotos, denominados “kakure kirishitan” (cristãos escondidos). A notícia de tal descoberta causou sensação no vaticano e logo realizou-se a incorporação deles ao rito comum católico. Alguns, curiosamente, recusaram-se a reintegrar-se ao cristianismo, pois seu culto havia de tal modo modificado-se do rito cristão comum que resolveram continuar separados da igreja católica, numa espécie de culto aos ancestrais, independente.
O último grande e interessante capítulo dessa história em minha opinião, estando a 7 dias
do centenário da imigração japonesa no Brasil (foto do monumento comemorativo ao lado), é que uma grande parte dos japoneses emigrados ao Brasil vieram dessas comunidades kirishitan (pois então, ninguém nunca se perguntou porque os nipo-brasileiros não cultivaram assiduamente a religião budista?). Há um exemplo célebre de kirishitan que viveu no Brasil, aliás, o primeiro padre católico de origem japonesa no país: Monsenhor Domingos Nakamura, falecido em 1940, aos 75 anos de idade. Ele nasceu exatamente numa das regiões que resistiu à perseguição estatal aos cristãos, bem ao sul da ilha de Kyushu, e passou boa parte de sua vida atendendo às necessidades espirituais de compatriotas seus, também emigrados de comunidades kirishitan, vivendo onde hoje é a cidade Álvares Machado, região oeste do estado de São Paulo. Monsenhor Domingos, que andava em lombo de burro, atendendo aos japoneses que não conseguiam se comunicar em português, é candidato à beatificação pelo seu espírito incansável, como era aliás, o espírito de vários de seus antepassados.
Leitura:
C.R. Boxer - The Christian Century in Japan (O Século Cristão no Japão) (1951).
Emerson Santiago é brasileiro, advogado, professor de inglês e lusófono declarado. Ele escreve todas às quintas-feiras no do blog Descobri a Pólvora!










