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Missão cumprida

Michell Niero | Especiais | Terça-feira, 12 Agosto 2008

Depois de quatro meses de sucesso de público e de crítica, o blog Descobri a Pólvora! dará lugar a revista eletrônica O Patifúndio! neste mês de agosto.

Foram 67 artigos publicados desde o dia 17 de abril, nossa estréia. Ao longo deste tempo recebemos quase 8 mil visitas, o que gerou mais de 40mil page views ao nosso blog. Temos hoje um público cativo em boa parte do mundo lusófono. Gente que se acostumou a receber nossas histórias, nossos personagens, mas que contribuiu também, integrando-se ao nosso time de colaboradores.

Agradecemos muito a você leitor, responsável por tornar possível este projeto. Que venha agora uma nova temporada de boas novidades.

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Os carros de Luanda

Sandra Ugrin | Angola, Cidade, cotidiano, traços culturais | Sexta-feira, 08 Agosto 2008

ANGOLA - Luanda tem uma poeira danada devido ao calor e as ruas de terra, mas é impressionante, os carros estão sempre brilhando. Isso os brasileiros precisam copiar dos Angolanos, eles lavam os carros só com um baldezinho de água. Em qualquer lugar que você parar vai encontrar alguém disposto a lavar seu carro.

Se o brasileiros são apaixonados por carros, os angolanos são muito mais. Eles adoram carrões, mas não fazem a menor manutenção neles; hoje um deles perdeu a roda na frente do escritório. A coisa mais comum aqui em Luanda é ver carcaças de carros jogadas em terrenos. Mas em Luanda não existe estacionar em fila dupla, só tripla…

Ou no meio da rua mesmo…

Confira mais fotos clicando aqui

Sandra Ugrin é brasileira, trabalha em Luanda na área de marketing com inteligência de mercado e escreve todas às sextas-feiras no Descobri a Pólvora! Para saber desta e de outras histórias, acesse o blog Menina de Angola.

Bayano: o português uruguaio

Emerson Santiago | Emerson Santiago, TO NEM AÍ, Uruguai, linguística, traços culturais | Quinta-feira, 07 Agosto 2008

Sim, caro leitor. No Uruguai também se fala português! 

TÔ NEM AÍ
Meu objetivo é tratar de Tratar de lusofonia sem abordar assuntos relacionados a Brasil ou Portugal. Será que consigo?

URUGUAI - Neste artigo quero tratar dos chamados DPU (sigla de Dialectos Portugueses del Uruguay), termo criado pelos estudiosos lingüistas de Montevidéu para definir uma (ou várias, ainda não se chegou a um consenso) variante da língua portuguesa criada e desenvolvida no próprio Uruguai. Mas afinal, o que são esses dialetos? Teriam eles alguma ligação ou influência cultural brasileira? Onde se localiza tal fenômeno?

Respondo: Há cerca de 45 anos era ponto pacífico para todo intelectual uruguaio que seu país possuía uma língua e uma cultura deveras homogênea. Foi com esse espírito que o lingüista Pedro Rona resolveu envolver-se no estudo das variedades da língua espanhola falada mais ao norte de seu país. O norte do Uruguai era, na época, e ainda é, a parte digamos, um pouco mais esquecida ou mais destacada da capital, portanto, com uma realidade pouco conhecida nos grandes centros do país.

E qual foi a surpresa deste senhor ao se deparar com uma população que era na verdade bilíngüe; no trabalho, em ocasiões oficiais e cerimônias, utilizava-se o espanhol, em casa, com os amigos, parentes, família, as pessoas utilizavam uma espécie de português corrompido, com algum vocabulário espanhol. Este português não era o mesmo do Rio Grande do Sul, demonstrava ser, isso sim, um continuum, um prolongamento da língua portuguesa em terras uruguaias.

Os estudos de Alberto Elizaincin confirmaram mais tarde o tal fenômeno. Foi ele quem cunhou o termo “DPU”, até hoje preferido nos meios intelectuais. Já a população local (norte do Uruguai, regiões de Artigas, Rivera, Rio Branco e afins) refere-se ao seu falar como ”fronterizo”, ”bayano”, ”brasilero” ou até mesmo”portuñol” (não confundir com a mistura mal articulada de português e espanhol que aparece na mídia).

A conclusão é de que a área do norte do Uruguai foi historicamente palco de colonização portuguesa, e a língua manteve-se, apesar dos pesares. Equivocadamente os independentistas uruguaios, tentando forjar uma identidade hispanista diversa da brasileira, que desse plena justificação à independência de seu país, reconheceram apenas a língua espanhola como legítima representante de sua cultura em detrimento da brasileira (Timor também fez isso com relação à Indonésia, ao adotar a língua portuguesa como oficial). Assim, o norte do Uruguai foi, forçosamente, desde a independência do país, ”aculturado” em tal mentalidade.

Falar o tal “bayano” era sinônimo de condição social inferior; fazia de você um jeca dentro do Uruguai. Hoje em dia, um resgate do idioma vem sendo feito. O português é obrigatório no ensino público a partir da sexta série e aulas bilíngües, em português e espanhol, estão disponíveis na região norte do país.

As pesquisas avançam, há estudos que confirmam que dois ou até mesmo seis tipos diferentes de português são utilizados pela população do norte do Uruguai (daí o termo estar cunhado no plural). Essas variedades possuem sim, influência do português do Rio Grande do Sul, região vizinha, do Rio de Janeiro (influência das telenovelas e programação em geral de televisão) e do espanhol, variedade uruguaia. Mas, é comprovadamente, uma espécie de português cultivado e falado dentro do Uruguai, pelo seu próprio povo, e parte de sua cultura.

É interessante notar que aproximadamente um terço dos uruguaios possuem sobrenomes portugueses (exemplos: o jogador de futebol Pedro Rocha, ídolo do São Paulo na década de 70; Leandro Andrade, o artilheiro da copa de 1930 e capitão da seleção uruguaia; ou então Pedrito Ferreira, o maior artista do candombe, ritmo afro-uruguaio de raízes angolanas e brasileiras).

Emerson Santiago é brasileiro, advogado, intérprete e tradutor de
mandarim (chinês) e é um apaixonado pelas culturas lusófonas. Ele escreve todas às quintas-feiras no blog Descobri a Pólvora!

Zoar: verbo intransigente

Michell Niero | Brasil, Michell Niero, política, traços culturais | Terça-feira, 05 Agosto 2008

BRASIL - A primeira oportunidade de zoar (ou de tirar onda) aparece na escola, junto à turma de amigos mais legais. É o momento de @ garot@ sentir na pele, pela primeira vez, o prazer de pertencer a um grupo de pessoas fora do ambiente familiar. O problema ocorre quando este jovem migra para a idade adulta e se deixa seduzir pelo prazer do deboche em troca de pertencimento.

Zoar parece ser atitude normal em adolescentes lotados de energia e de necessidade de auto-afirmação. Fazer as coisas “de zoeira” parece ser também um mecanismo de autodefesa de uma mocidade que, em prol de um status, desautoriza a autonomia da própria personalidade.

É provável que a palavra zoar tenha origem onomatopaica, relacionada ao som incômodo dos zumbidos de insetos. O marimbondo, por exemplo, usa o melhor dos seus zumbidos para atrair a fêmea na época do acasalamento. Em contrapartida, queima a paciência de quem convive (ou já conviveu) com caixas de marimbondo penduradas no telhado. Fazer zoeira incomoda, mas dá barato para quem a faz.

A história recente do Brasil guarda inúmeros casos em que a ‘’zoeira’’ operou contra o interesse público. Em 1993, por exemplo, o Brasil inteiro se surpreendeu após a contagem dos votos das eleições presidenciais. Com mais de 4,5 milhões de votos, o candidato Enéas Carneiro, mais famoso pela longa barba, pelos óculos grandes de aros grossos e pelo bordão ‘’meu nome é Enéas’’ que por planos de governo, conquistou a façanha de ser o terceiro mais votado numa eleição que reuniu políticos do naipe de Lula, FHC, Orestes Quércia, Esperidião Amin e Leonel Brizola.

Com o argumento de que “foi por brincadeira, a gente pensava que era um mendigo”, um grupo de adolescentes de classe média de Brasília ateou fogo no índio Galdino de Jesus, que dormia próximo a um ponto de ônibus. Os moleques hoje vivem soltos; eles, filhos de juízes e de desembargadores pertencentes aos 7% da população que detém mais da metade do PIB nacional.

Outro alerta gritante é o bullying nas escolas, que nada mais é que a zoeira especializada em ir até as últimas conseqüências para irritar outros alunos. Pelo menos dois casos de bullying escolar já terminaram em morte no Brasil. Um deles aconteceu em janeiro de 2003, quando o adolescente Edmar Freitas, então com 18 anos, comprou um revólver calibre 38 e disparou contra 50 pessoas durante o horário de recreio. Em 2004, um adolescente de 17 anos, de Remanso, na Bahia, também atirou contra um colega depois de ser ridicularizado na escola.

O prazer juvenil da farra e do achincalhe pode ser muito prazeroso para os brasileiros, mas passa a ser tema sério quando a simples a licença para brincar afeta o bem estar do outro. Tomar atitudes impensadas, sejam elas por impulso ou pela pressão das circunstâncias, pode ser uma arma letal contra o interesse público (afinal, estamos em ano de eleição) e, sobretudo, contra a vida.

Em tempo: estou publicando meu artigo semanal, excepcionalmente, na terça-feira por um bom motivo. Estamos em vias de terminar o nosso novo layout para, enfim, nos tornarmos a revista eletrônica O Patifúndio! E quem mais ganha com isso e você leitor, que fez do blog Descobri a Pólvora! um sucesso de crítica nestes quatro meses. Boas novidades virão nos próximos dias.

Michell Niero é brasileiro e idealizador da Revista O Patifúndio. Ele escreve todas às segundas-feiras no blog Descobri a Pólvora!

A cidade

João Pinheiro | Artes plásticas, Brasil, Cidade, João Pinheiro, cotidiano | Domingo, 03 Agosto 2008

BRASIL - Eu continuo por aqui;
Observo os boeiros sujos,
as bocas de lobo cancerosas.

Os barracos são como doentes
que insistem em sobreviver,
quase sem sangue nas veias.

As paredes esverdeadas e descascadas
são como a própria existência nossa.
Vejo-as como a pele de um septuagenário
que fica áspera com cada esperança perdida,
lágrima caída, passo dado…

Só creio no que meus olhos vêem,
no que meu corpo sente.
Sentir na pele foi minha única maneira de aprender.

Sou aquele barraco que descasca,
aquela árvore debruçada sobre o muro,
sou como um poste brotando do concreto,
aquele boeiro que transborda
carregado de existência.

João Pinheiro é brasileiro, cartunista, ilustrador e escreve todos os domingos - com textos e imagens - no blog Descobri a Pólvora! Conheça mais do trabalho brilhante do João no portifólio dele e nos blogs Os Subterrãneos e Cabeçorra e Corvolino.

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